“Precisamos falar sobre Kevin”: um breve momento de reflexão

Baseado no best seller de Lionel Shriver e dirigido pela cineasta escocesa Lynne Ramsay (de O Romance de Morvern Callar de 2002), Precisamos falar sobre Kevin (We need to talk about Kevin, 2011) é um suspense psicológico que nos conduz pelas memórias de uma mãe, Eva, interpretada por Tilda Swinton (de Conduta de Risco (Michael Clayton de 2007), sobre o nascimento, desenvolvimento e fatídico desfecho de seu primogênito. O filme tem um curso entrecortado, por vezes lembrando o andamento de um pesadelo que, na verdade, é real. A narrativa mistura acontecimentos vividos por Eva após o evento catastrófico perpetrado por seu filho, com memórias desde antes de seu nascimento e imagens onde predominam a cor vermelha. Cinematograficamente brilhante, o filme injeta doses constantemente crescentes de tensão até a saturação de nossa capacidade de pensar e sentir, realizando com sucesso a transmissão das emoções dessa díade mãe-filho, em seu relacionamento vazio e violento.

Precisamos falar sobre Kevin pode ser pensado como uma grande tentativa de entendimento e reparação de uma mãe afogada em culpa pelos atos horrendos de seu filho. O livro que deu origem ao filme é uma obra de ficção que parece baseada nos fatos verídicos que aconteceram numa escola de ensino médio em Columbine, nos EUA, em 1999. Há semelhanças entre as duas histórias, mas aqui o ponto de vista é o da mãe, que busca um sentido para seu passado e presente. Vinda de uma carreira bem-sucedida como escritora de livros turísticos e uma vida exclusivamente a dois; desde antes do parto, a maternidade parece se configurar como um fardo muito difícil de ser carregado. Nosologicamente, é nítido que Eva encontra-se em uma profunda depressão pós-parto; contudo, o filme vai muito além disso, mostrando todos os desdobramentos do mórbido encontro entre características inatas e um ambiente pouco favorável.

Kevin, filho de Eva, vem ao mundo nos braços gélidos e inábeis de sua mãe devastada. O filme mostra as interações crescentes de violência entre os dois ao mesmo tempo em que entrecorta as imagens com tentativas da mãe de reparar, seja raspando a tinta vermelha jogada em sua casa após a tragédia, seja na infância de Kevin, quando tentava ser amável com ele. O desapego e desinteresse de Kevin pelo mundo fica nítido em diversos momentos e em situações de seu desenvolvimento. Kevin cresce com diversas manifestações de crueldade, desprovido de qualquer empatia, primeiramente contra sua mãe e depois contra seus colegas de escola. Os atos de violência são recíprocos e predominantemente substituem quaisquer outras formas de demonstração de afeto entre os dois. Seu relacionamento não é penetrado por ninguém, seja pelo pai, seja por outras pessoas, como o pediatra que o acha totalmente normal e outra médica, que comenta ser Kevin um menino muito corajoso. A ausência do pai é constante durante toda a história e mostra-se desde na sua incapacidade de dar-se conta da agressividade de Kevin em pequenos eventos da infância, sempre amenizando como “coisas que meninos fazem”, até no auge de incentivá-lo à perfeição da prática da fatal arte do arco-e-flecha. A ausência e o vazio também ficam claros na ausência de limites em toda a criação de Kevin, explicitada da forma mais cruel quando ambos os pais acobertam o fato de Kevin ter supostamente causado a perda de um olho de sua irmã mais nova.

Ao mesmo tempo em que Kevin se relaciona com toda família de forma quase exclusivamente violenta, Eva é a única que de fato o conhece. Seu pai conhece apenas o lado agradável que Kevin faz questão de demonstrar em contraste com como se comporta com sua mãe. Eva é a única que percebe a maldade de seu filho, desde muito cedo, mas não consegue fazer nada para conter ou alterar seu curso. Ela relembra os inúmeros eventos perpetrados por Kevin e, de certa forma, se enxerga nele. Eva vê sua própria agressividade em seu filho e isso a imobiliza ainda mais. Mesmo quando sua maldade fica evidente, ninguém parece percebê-la. Kevin mistura crescente dissimulação, inteligência com requintes de crueldade e ao longo da história vai preparando sua mórbida obra-prima.

Precisamos falar sobre Kevin retrata a história de uma família que não consegue falar sobre Kevin, muito menos reconhecer a gravidade do comportamento dele, a não ser quando ele se torna um serial killer nacionalmente famoso. É um filme emocionalmente pesado que traz à tona inúmeras questões a serem discutidas do ponto de vista do relacionamento entre pais e filhos, da colocação de limites, da repercussão da dificuldade de comunicação de afetos entre mãe e filho, dos possíveis problemas decorrentes da depressão pós-parto e da dificuldade dos pais em entrar em contato com aspectos cruéis de seus filhos. Teria Kevin se beneficiado, assim como sua mãe, família e por final toda a sociedade, se suas dificuldades tivessem sido abordadas o mais cedo possível? Poderia uma abordagem terapêutica com foco na interação mãe-bebê ter alterado favoravelmente o curso de seu desenvolvimento? Qual seria o papel dos terapeutas, psicólogos e psiquiatras em situações como as descritas no filme? Até que ponto a ausência de um trabalho terapêutico focado no entendimento desse relacionamento e na expressão do afeto poderia ter alterado o desfecho fatal? Ainda não sabemos quanto do comportamento antissocial é decorrente do ambiente e quanto já é inato ao indivíduo. Essa angústia, infelizmente, seguirá conosco mesmo após o final do filme.

Referência: http://rbp.celg.org.br/detalhe_artigo.asp?id=76

Compartilhar

Nenhum comentário

Comentar